segunda-feira, 17 de setembro de 2012

«Arqueologia» - A Casa da Torre



Fantástica recuperação de património degradado
 
Aspeto da torre da casa depois de recuperada.
Geograficamente integra a Quinta da Alagoa, no limite dos concelhos de Moimenta da Beira e de Sernancelhe, respetivamente entre os principais aglomerados de Prados e Faia.

Não ficando muito distante de estâncias arqueológicas como as necrópoles medievais de Fornelos (ou Quinta da Raposeira) e do Corgo do Poio (na albufeira da barragem do Vilar) e onde inclusive, em 1788, foi encontrado um marco miliário[1], conta-se que nesta casa, que contudo acabou por ficar ao abandono e permanecer durante muito tempo em estado de degradação, morou em tempos um homem muito rico, contudo de temperamento difícil, arrogante e orgulhoso, a quem chamavam «Rei Chiquito». Frequentemente metido em barafundas com os seus vizinhos e habitantes dos Prados e da Faia, e por ser um político exaltado, quiseram prendê-lo e castigá-lo. Assaltaram-lhe a casa, remexeram tudo, mas nunca o encontraram. Afastados e já longe, o Rei Chiquito aparecia depois à janela bradando: «Rei Chiquito já cá está, quem quiser que volte cá!» E voltavam, mas nada! Isto repetia-se inúmeras vezes sem que os seus perseguidores conseguissem, porém, alcançá-lo. Sempre que voltavam a casa, esta encontrava-se vazia e há quem diga que esta escapatória se devia à existência de uma mina com cerca de cento e cinquenta metros de comprimento construída pelo mesmo e que ia dar a um souto. Misterioso refúgio que certamente valerá a pena descobrir!
Daí ser romanceada por uns, para outros ser mais uma casa assombrada e, mais importante, ter motivado a família Oliva Teles a conseguir uma fantástica recuperação de património degradado. «Ver esta Casa reconstruída é a concretização de um sonho antigo», revelam os proprietários.
Aliás, quem a visitar constatará de imediato não só a simpatia de quem aí vive, como também a dedicação, o bom gosto e o cuidado que os mesmos tiveram em manter as características da construção original, os inúmeros pormenores quer dentro como por exemplo o silo de armazenamento escavado no solo e as namoradeiras das janelas, quer exteriormente visível na invulgar torre (elemento que lhe deu o nome), no nicho religioso ou particularmente na inscrição gravada na pedra que serve de padieira de uma janela (outro vestígio merecedor de estudo), sem, porém, terem esquecido as exigências de conforto e funcionalidade que nos nossos dias uma habitação, seja em meio urbano ou rural, deve necessariamente considerar. E como se não bastasse, desfrutará, ao mesmo tempo, de uma maravilhosa vista sobre o vale do Távora e de um ambiente de total descontração e harmonia com o campo!
             
Publicado no Jornal Beirão (88.ª edição)

 


[1] Trata-se de uma coluna de pedra que se destinava a ser colocada junto às vias romanas, como informação para os viajantes, indicando a distância em milhas e o nome do imperador reinante à data da construção ou da reparação da via. Este vestígio arqueológico aparece mencionado no Elucidário das palavras, termos e phrazes de Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo e hoje integra a Coleção Epigráfica da Assembleia Distrital de Viseu. Com base no atual inventário, mede 2,20 m de altura e provavelmente estaria colocada junto à antiga via romana Mérida – Braga. No entanto, existem duas interpretações a seu respeito:
1.      CONCILIO.AN / TIQVO. / CAIO BAQ. / FORTISSIMO / CAES. / ANTONIO / TANTI … / : FILIO / BONO / REIP / NA / TO
(segundo a ficha de inventário da Assembleia Distrital de Viseu).

2.      CONSTAN / TINO / CAESAC / P(io) FORTIS / SI.MO CAES(ari) / DIVI.CONS / TANTI / P.IX / FILIO / BONO / REIP(ublicae) / NA / TO
(interpretação feita pelo Dr. João Inês Vaz em Epigrafia Romana da Assembleia Distrital de Viseu (1978), que traduz da seguinte forma: Ao imperador Constantino, César, Augusto, Pio, Fortíssimo, César, filho do divino Constante, nascido para bem da República.)
Na povoação da Faia foi detetado outro miliário, num jardim de uma habitação particular.


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